sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A Epopeia de Gilgamesh

Caros Amigos,

Hoje entreguei o trabalho de pré-clássicas que foi uma primeira abordagem à Epopeia de Gilgamesh. Aconselho todos a lerem este livro. Deixo-vos aqui a introdução que fiz a ver se dá para espicaçar um pouco a coisa.

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A Epopeia de Gilgamesh conta-nos a história do rei de Uruk, na Mesopotâmia. Esta história foi descoberta algures no século XIX sendo que constitui uma das poucas referências históricas do período pós dilúvio. A história está escrita sobre a forma de poemas e não de narração um pouco ao estilo dos poemas Homéricos. O que o livro nos traz é uma história na qual podemos ter acesso a um misto de moralidade, tragédia e aventura. Esta epopeia tem algo que deve ser considerado muito interessante, pois estamos a falar de poemas escritos muito antes dos Homéricos, e já temos uma preocupação humana com o seu destino. A história do livro é trágica no sentido que o destino do homem está fadado, ou seja, não existe fuga à morte. Gilgamesh durante a sua jornada faz os possíveis para conseguir escapar aos destinos do homem, mas a tragédia reside no final de tudo, pois não existe volta a dar, o homem morre e esse é o seu destino. Esta situação dá-nos uma visão daquilo que era considerado para os sumérios a vida e o fim desta. Estes poemas começaram por ser primeiro transmitidos oralmente, crê-se que esta epopeia terá sido criada por volta do terceiro milénio a.C., sendo que só mais tarde terão sido escritos em placas de barro. Algumas das placas chegaram até nós em mau estado, como tem sido normal no que concerne à documentação suméria.

Os sumérios acreditavam que a realeza tinha descido dos céus a seguir ao dilúvio, o que confirma que Gilgamesh terá pertencido à primeira dinastia pós-dilúvio, sendo que é tido como o quinto desta linhagem. Esta é uma época da qual se sabe muito pouco daí que existam situações discrepantes como a de Gilgamesh ter vivido 126 anos. Para os sumérios a divindade tinha um papel bastante central sendo que as próprias cidades eram propriedades dos deuses, situação que mais tarde verificamos na Grécia, na qual cada cidade tem o seu deus protector. Estas cidades, como o caso de Uruk, tinham a característica de serem constantemente guerreadas o que demonstra um pouco o espírito guerreiro que fazia parte da forma de ser dos habitantes desta zona, o que não é de estranhar que o herói desta epopeia seja um rei guerreiro, por sinal com uma força sobre-humana.

Gilgamesh é uma personagem à qual não existem certezas absolutas sobre a sua existência. Ainda assim existem documentos que levam a crer que terá existido um rei com este nome. Este rei terá comandado uma expedição com o intuito de trazer cedros das florestas, situação à qual a epopeia não é alheia, pois Gilgamesh fará mesmo uma expedição a uma floresta de cedros com o intuito de matar o guarda desta floresta. Gilgamesh é uma personagem que não desaparece do imaginário sumério sendo que lhe é atribuído a função de juiz do mundo inferior, existindo mesmo preces que são dirigidas a este. O rei é nos relatado como um ser dois terços deus e o resto humano, dado que a sua mãe é uma deusa, Ninsum, de quem herda a beleza divina, a força sobre-humana. Do seu pai, ao qual durante o livro várias vezes o invoca como sendo Lugulbanda, terceiro rei da presente dinastia, herda aquilo que faz dele humano, a morte, pois só os deuses são eternos. É impossível não referir Aquiles após esta discrição. Gilgamesh é um personagem sempre em busca da glória e que o seu nome perdure para sempre, mas também é alguém atormentado com os problemas da mortalidade do homem. Toda esta situação traz todo um pessimismo à epopeia que acaba por ser espelho da sociedade suméria aos quais a vida eterna era uma vida de sofrimento, portanto mais valia a pena não ter essa “sorte”. O pessimismo sumério perante a efemeridade da vida deveria ter origem no facto de a forma de vida guerreira e as constantes guerras entre as cidades não deixarem alternativa senão considerar que a vida estava fadada a ser curta. Existe também o papel dos deuses, que conforme a sua vontade iam acontecendo as mais diversas desgraças e como tal provocava o tal pessimismo. Nesta epopeia a vontade dos deuses tem um papel fundamental no seu desenrolar.

Esta epopeia está dividida em capítulos muito específicos nos quais o herói tem sempre a vontade de imortalizar o seu nome. A história começa em Uruk, com Gilgamesh já adulto, descrito como um homem de uma força sem igual. É também visto como alguém com uma beleza divina mas ao mesmo tempo é uma personagem insatisfeita. Durante a epopeia Gilgamesh irá ter um amigo de nome Enkidu que é-nos apresentado como alguém simples a viver juntamente com os animais. A história inicial desta personagem faz lembrar um pouco a história do homem sem pecado, Adão, e ao qual é dado a conhecer o pecado através de uma prostituta. Após este episódio podemos considerar que Enkidu perde a inocência mas também a sua simplicidade. A morte do futuro grande amigo de Gilgamesh traz-lhe um grande desgosto, a ideia de morte certa toma conta do herói e é aí que o rei parte na busca do seu companheiro."

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